4/10/2019 7:08:22 PM

Não se engane: talvez você não esteja produzindo o quanto você deveria. E não é (somente) culpa sua.

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Convidamos Rodrigo Pacheco, head de educação da Spin aceleradora de startups, para compartilhar conosco sua experiência sobre a importância da educação na construção de uma cultura de inovação.

Quantas ações a sua empresa deveria fazer para incentivar a inovação na sua empresa?

Eu começo o meu texto com essa pergunta para gerar uma breve provocação em você. Ela pode não trazer tantos detalhes que permitirá a você responder adequadamente, mas não se preocupe, voltaremos nessa pergunta em breve e tudo fará sentido.

Perguntas assim representam uma série de desafios que encontramos no nosso cotidiano. Esses desafios nos afetam diretamente pela sua complexidade e por mais simples que possa parecer, querer resolvê-los pode gerar um esforço muito grande nas pessoas. Seja você um(a) executivo ou um(a) empreendedor.

A dificuldade gerada em função deste esforço vem da nossa infância escolar, para não dizer do nosso berço. Durante muitos anos, a educação tradicional trouxe muitas respostas prontas para o nosso processo de aprendizado. Ao tentar resolver problemas complexos com as variáveis já conhecidas, percebíamos o quanto estávamos em um contexto seguro e previsível, fortalecendo ainda mais o nosso comodismo.

Por mais que haja bons exemplos de professores e escolas no Brasil, não há como negar que o sistema educacional limita a maioria dos seus pares, centralizando toda a responsabilidade sobre suas costas, exigindo de professores e profissionais da educação uma figura de verdadeiros super-heróis.

Infelizmente, o que prevalece é um contexto que força os alunos a reproduzirem coisas prontas do que a produzirem de fato. E é a produção de conhecimento que faz a diferença quando falamos em inovação.
Assim, como não fomos ensinados a resolver problemas na sua essência mas sim a reproduzir suas respostas prontas, querer resolver desafios atualmente se torna uma tarefa ainda mais difícil.

Reproduzir não tem nada a ver com o profissional do futuro ou tampouco com as empresas que queiram se destacar no mercado. Mas como isso interfere no ambiente corporativo? É o meu próximo ponto.


O RH da empresa não está alinhado ao professor da sua universidade

Se você já passou por alguma entrevista de emprego, certamente você já deve ter percebido que os anseios e os desejos da maioria das empresas são relativamente parecidos. Geralmente, essas empresas falam coisas como:

  • Buscamos profissionais criativos;
  • Buscamos profissionais que saibam trabalhar em grupo;
  • Buscamos profissionais que aprendam com os seus pares;
A criatividade, o trabalho em grupo e o aprendizado constante são questões diretamente ligadas à nossa educação tradicional.
  • Exemplos: durante as provas escolares, as questões eram (muitas vezes) de múltipla escolha, o que limitava a sua resposta às opções já pré-definidas, eliminando qualquer capacidade criativa de resolver os desafios propostos.
  • Outro exemplo: você não podia olhar para o lado pois poderia ser penalizado por estar copiando dos colegas e as notas eram dadas para os melhores alunos, fortalecendo ainda mais o individualismo sem favorecer a importância do conhecimento compartilhado e a cocriação em grupo.
  • E por fim: lembra quando você tirou a primeira nota baixa na escola? O seu medo de ser repreendido pelos pais ou até por seus professores era o sentimento mais comum, muito semelhante a falta de abertura à erros que, mesmo inconscientemente, ainda é forte dentro das empresas.
Se de um lado, tivemos uma educação focada na linearidade e individualismo, por que as empresas exigem justamente o contrário? Por que eu preciso ser colaborativo no ambiente de trabalho se eu sempre tive que tirar a melhor nota da sala? Por que eu preciso pensar fora da caixa se sempre me ensinaram a reproduzir coisas prontas? E por que eu tenho que pensar em inovação se eu não tenho uma abertura para poder errar e validar o meu aprendizado?

Como mudar essa realidade?

A mudança é uma expectativa de 10 em cada 10 pessoas que enxergam esse contexto como um problema cotidiano. O desafio é que a transformação é muito mais desejada para os outros do que para nós.

O ser humano adora mudanças, mas nem sempre gosta de mudar. E se o ambiente da empresa não estimular esse comportamento de mudança, as coisas ficam ainda mais difíceis.

A transformação cultural é o principal movimento de partida. Entender o contexto interno é partir de uma coerência importantíssima na hora de construir ações que possam fortalecer a mentalidade inovadora dentro da empresa. A partir do entendimento interno bem estruturado, o segundo passo é pensar na transição e como mitigar os riscos envolvidos ao propor uma transformação cultural. E por fim, é desenvolver um programa de ações de fato.

Além das mudanças internas, olhar para fora também é uma saída interessante. Em Santa Catarina, temos um contexto muito rico que estimula constantemente esse modelo mental de mudança.

Vários atores do nosso ecossistema reforçam essa importância e atuam como verdadeiros responsáveis por mudar esse cenário. Estes atores podem ser denominados como aceleradoras, incubadoras, órgãos públicos, parceiras público-privada, entidades de classes, entre outros.

Todo este ecossistema resulta em ações como meetups de inovação, hackathons, congressos, summits, TEDx, visitas técnicas e muito mais. Todos, com diferentes propostas e objetivos, buscam resolver uma necessidade praticamente universal à todos: o comportamento empreendedor das pessoas.

E um outro exemplo que torna tangível esse comportamento é o movimento das startups. Esse pequeno organismo vivo e incrivelmente ágil é desenvolvido em um contexto incerto, com alta capacidade de impacto e crescimento. Esse contexto gera uma forte curva de aprendizado e transformação, seja para as pessoas envolvidas ou para o próprio modelo de negócio em si.

Um verdadeiro exemplo de como explorar as próprias capacidades para entregar valor em um curto espaço de tempo, o qual você é exigido trabalhar em interação constante, saber ouvir o cliente regularmente e explorar a transversalidade dos envolvidos para explorar ao máximo suas competências.

Uma das formas que representam essa agilidade é o seu próprio modelo de negócio em si. E para representar essa ideia, eu gosto de citar um trecho do livro De Zero a Um, do Peter Thiel, fundador do Paypal e da Palantir que diz o seguinte:

"as startups operam no princípio de que você precisa interagir com outras pessoas para realizar as coisas, mas também precisa permanecer pequeno o suficiente para realmente conseguir realizá-las."

A interação com as pessoas surge novamente como um fator que complementa o processo de aprendizado de um indivíduo.

Ou seja, quanto mais rápido pudermos errar com essas interações, mais rápido iremos aprender coisas novas. As pequenas vitórias de um startup representam esse comportamento livre e altamente ligado à produção de conhecimento.

E ao ter espaço e a agilidade ideal para crescer, nós trocamos a disciplina das ações pré-definidas pelo empoderamento de poder evoluir dentro das suas próprias condições, enfatizando as competências de cada envolvido e dando o espaço para essa pessoa crescer dentro do seu tempo.


E lembra da pergunta lá do início?

Quantas ações a sua empresa deveria fazer para incentivar a inovação na sua empresa? A resposta é: depende.

Depende o que a estratégia dessa empresa diz sobre inovação; o que as lideranças entendem sobre o seu conceito; qual é o perfil dos colaboradores; quais ações já são feitas atualmente; entre outras variáveis.

Muito mais do que saber a resposta, é você tentar entender o contexto, criando o seu próprio raciocínio ao construir o conhecimento em volta do desafio.

Portanto, para qualquer desafio que você for encarar daqui para frente, não espere que as respostas sejam fáceis, com as variáveis conhecidas e tampouco com alguma resposta pré-definida, como se você apenas estivesse esperando para reproduzir coisas prontas do seu cotidiano.

Vá atrás e construa. Pode ser do zero, com conhecimentos limitados e com poucos recursos. Mas a iniciativa de construir já será o suficiente para você se diferenciar.

Use o ecossistema à seu favor. Use a informação disponibilizada na internet. Leia livros. Explore diferentes pontos de vistas. Use as pessoas diretamente ligadas ao seu objetivo como fonte de informação. Faça o que for possível, mas faça.

A inovação não é um valor, é um processo. É um processo que você constrói a partir dos comportamentos das pessoas e da capacidade de realização. Estimule o seu lado inovador e ajude a estimular o dos seus pares. O resultado pode ser transformador.

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